Brasileiro pocotó
Meu amigo Victor Queiroga, editor do extinto Urubucervando, mandou-me este texto o qual eu apresento na íntegra com uma pequena correção gramatical no tocante à colocação pronominal que é algo que realmente me irrita quando vejo errada.
"Texto do Prof. Júlio Clebsch, editor do Jornal Profissão Mestre.
BRASILEIROS POCOTÓS
O jumento e o cavalinho
eles nunca andam só
quando sai (sic) pra passear
levam a égua Pocotó
Pocotó, pocotó, pocotó
Minha egüinha Pocotó.
Luciano Pires, Diretor de Comunicação da Dana Corporation, é autor
de um ótimo livro, do qual emprestei o título deste editorial,
"Brasileiros Pocotós - Reflexões sobre a mediocridade que assola o
Brasil" (Ed. Panda Books). Em sua contra-capa, ele escreve o
seguinte: "Você liga a televisão e não se conforma com o baixo nível
da programação? Abre o jornal e só encontra notícias superficiais e
sensacionalistas? Liga o rádio e parece estar ouvindo sempre a mesma
música? Ruim? Chama um 'profissional' para fazer um conserto em sua
casa e o resultado é um desastre? No trabalho, sente a solidão de
não ter interlocutores? As conversas são rasas, os temas
superficiais? Vê seus filhos decorando a mesma tabela periódica que
você decorou anos atrás? Você tem a sensação de que o Brasil está
ficando burro? Pois eu, sim! Daí este livro".
Muito bem. Foi disso que lembrei quando, dia desses, um amigo me
encaminhou um texto de autoria de Roberto Reccinella , que dizia:
"Na terça-feira, dia 22/02, a Rede Globo recebeu 29 milhões de
ligações do povo brasileiro votando em algum candidato para ser
eliminado do Big Brother. Vamos colocar o preço da ligação do 0300 a
R$ 0,30. Então, teremos R$ 8.700.000,00. Isso mesmo! Oito milhões e
setecentos mil reais que o povo brasileiro gastou só nesse paredão.
Suponhamos que a Rede Globo tenha feito um contrato 'fifty to
fifty' com a operadora do 0300, ou seja, ela embolsou R$
4.350.000,00. Repito, somente em um único paredão...".
Alguém poderia ficar indignado com a Rede Globo e a operadora de
telefonia ao saber que as classes menos letradas e abastadas da
sociedade, que ganham mal e trabalham o ano inteiro, ajudam a pagar
o prêmio do vencedor e, claro, as contas dessas empresas. Mas o "x"
da questão, caro(a) leitor(a), não é esse. É saber que se paga para
obter um entretenimento vazio, que em nada colabora para a formação
e o conhecimento de quem dela desfruta; mostra só a ignorância da
população, além da falta de cultura e até vocabulário básico dos
participantes e, conseqüentemente, daqueles que só bebem nessa
fonte.
Certa está a Rede Globo. O programa BBB dura cerca de três meses. Ou
seja, o sábio público tem ainda várias chances de gastar quanto
dinheiro quiser com as votações. Aliás, algo muito natural para quem
gasta mais de oito milhões numa só noite! Coisa de país rico como o
nosso, claro. Nem o Unicef, quando faz o programa Criança Esperança
com um forte cunho social, arrecada tanto dinheiro. Vai ver deveriam
bolar um "BBB Unicef". Mas tenho dúvidas se daria audiência. Prova
disso é que na Inglaterra pensou-se em fazer um Big Brother só com
gente inteligente. O projeto morreu na fase inicial, de testes de
audiência. A razão? O nível das conversas diárias foi considerado
muito alto, ou seja, o público não se interessaria.
Programas como BBB existem no mundo inteiro, mas explodiram em
terras tupiniquins. Um país onde o cidadão vota para eliminar um
bobão (ou uma bobona) qualquer, mas não lembra em quem votou na
última eleição. Que simplesmente anula seu voto por não acreditar
mais nos políticos deste País, mas que ga sta seu escasso salário
num programa que acredita de extrema utilidade para o seu
desenvolvimento pessoal. Que vota numa legenda política sem jamais
ter lido o programa do partido, mas que não perde um capítulo sequer
do BBB para estar bem informado na hora de PAGAR pelo seu voto. Que
eleitor é esse? Depois não adianta dizer que político é ladrão,
corrupto, safado, etc. Quem os colocou lá? Claro, o mesmo eleitor do
BBB. Aí, agüente a vitória de um Severino não-sei-das-quantas para
Presidente da Câmara dos Deputados ea cara de pau, digo, a grande
idéia dele de colocar em votação um aumento salarial absurdo a ser
pago pelo contribuinte.
Mas o contribuinte não deve ligar mesmo, ele tem condições
financeiras de juntar R$ 8 milhões em uma única noite para se
divertir (?!?!), ao invés de comprar um livro de literatura,
filosofia ou de qualquer assunto relevante para melhorar a
rticulação e a auto-crítica...
Há uma frase de Robert Savage que diz: "Há mais pessoas dispostas a
pagar para se entreter do que para serem educadas". E é verdade, a
Globo sabe disso! Quantas pessoas você conhece que desistiram de
cursar uma faculdade porque acharam o preço muito alto? Pergunte a
uma criança quantos nomes de bichinhos de desenhos japoneses e
funções das personagens de jogos de computador ela conhece. Você vai
perder a conta. Mas se perguntar quem foi Monteiro Lobato, como se
escreve "exceção" ou quanto é seis vezes três, ela vai titubear.
Para piorar ainda mais o cenário dos próximos anos, cito um ditado
chinês: "Se você quer educar uma criança, comece pelos avós dela".
Voltando ao parágrafo original desse editorial, o autor do livro
comenta num dos primeiros capítulos o surgimento, há cerca de
quarenta anos, do MNMB (Movimento Nacional pela Mediocrização do
Brasil). Pois é, nem Stanislaw Ponte Preta e seu Febeapá (Festival
de Besteira que Assola o País) imaginariam que a coisa iria piorar.
E piorou. Sabe por quê? Porque o brasileiro quer. Chega de buscar
explicações sociais, coloniais, educacionais. Chega de culpar a
elite, os políticos, o Congresso. Olhemos para o nosso próprio
umbigo, ou o do Brasil. Chega de procurar desculpas quando a
resposta está em nós mesmos. A Rede Globo sabe muito bem disso, os
autores das músicas Egüinha Pocotó, O Bonde do Tigrão e ssemelhadas
sabem muito bem disso; o Gugu e o Faustão também; os gurus e xamãs
da auto-ajuda idem.
Não é maldade nem desabafo não, é constatação."
Um texto bem interessante, mas não creio que a conclusão seja
totalmente acertada não. Penso que muito da imbecilidade deste país vem da
falta de estimulo para a educação e a enchente de idiotice
existente. Se houvesse um meio de, nos meios de maior propagação
(leia-se Rede Globo), diminuir a ignorância em horários chaves e
apresentar informações mostrando os benefícios da educação e
oferecimento de programas educacionais em outros horários, talvez, somente talvez, isso fosse melhorar um pouco.
Mas talvez não, já desisti deste país.
















