Minha máscara
Faço estágio na Defensoria Pública da União.
Sobre isso irei divagar agora, pois estou ébrio e tenho vontade de faze-lo.
Desperto pelas manhãs às 11:30, tomo um banho frio e visto alguma roupa formal e sóbria. Almoço por volta de 12:15 e 13:05 saio de casa em direção ao núcleo da Defensoria que fica à uma quadra de minha casa.
O trabalho que faço lá é simples: Atendo as pessoas que não possuem (ou não querem gastar) dinheiro para pagar a um advogado em causas que tramitem perante a Justiça Federal, algumas diligências administrativas e algumas petições para prosseguimento das ações.
Quando algum assistido chega, procuro prontamente atende-lo com um sorriso simpático de forma que não pareça exagerado, apenas tranquilizante, pois todos que lá vão estão com algum tipo de problema (que eu não dou a mínima).
Enquanto a pessoa se senta, imagino-me apunhalando-a até a morte e brincando com seu sangue.
Pergunto cordialmente em que posso ser-lhe útil enquanto penso como ficaria aquele rosto empalado.
Ao terminar o atendimento, aperto rigorosamente sua mão e despeço-me de uma forma que lhe dá a certeza, ao olhar em meus olhos, de que seus problemas resolver-se-ão.
Essa é minha máscara, ultrapasso escalas de falsidade de tal modo que chego a ser verdadeiro. Exerço meu
trabalho com a diligência necessária, não alcanço perfeição, mas tenho um rendimento mais do que satisfatório.
Os assistidos saem tranquilizados, com uma idéia de mim, algum tipo de abstração, mas não meu eu verdadeiro, apenas uma ilusão, pois eu, simplesmente, não estava lá.
Minha consciência, minha simpatia, minhas esperanças desapareceram há muito, se é que algum dia existiram.
















